Futebol Família: a um futebolista.


Entenda o que é o Futebol Família aqui.

Deitei para dormir na noite do dia 22 de Fevereiro, última terça feira, com o intuito cotidiano de todas as noites: acordar na manhã seguinte. Revirei-me entre lençóis (um pouco por conta do calor que tem assolado minha região interiorana de São Paulo), até que uma lembrança pulsante fez-me tomar a decisão de levantar da cama, ligar o computador e escrever estas linhas, lidas por olhos atentos, nesta quinta feira, 24 de Fevereiro.

A memória me remetia ao feriado de Corpus Christi do ano de 2003, que eu passava na casa de meus avós (algumas vezes citados aqui). Na manhã da sexta feira daquele final de semana prolongado, 20 de Junho, fui ao centro da cidade na companhia de alguns amigos da rua (também citados aqui), certamente comprei bugigangas na Galeria do Roque, não me lembro ao certo; até por que, a recordação fixou-se em um grandioso detalhe.

Caminhando entre os longos corredores formados pelas barracas dos camelôs que, naqueles tempos, enchiam as ruas e calçadas do centro com produtos de baixo preço (e qualidade), bati os olhos em um que vendia unicamente produtos de times de futebol. Camisas, bonés, carteiras, bermudas, enfim, uma montoeira de produtos falsificados (naqueles tempos não havia tantos produtos licenciados como hoje) com símbolos de clubes futebolísticos.   Me aproximei do vendedor e, certamente, lhe perguntei:

-Moço, tem camisa do Santos?

-Tem sim, vou pegar … Tem a listrada e a branca.

-Vou levar uma listrada.

A camisa, inteiramente lisa, sem bordados brilhantes ou relevos, e de tecido duvidoso, tinha preço muito inferior à que era vendida nas lojas de esportes, mas era o que estava ao meu alcance e, sobretudo, havia nela o símbolo e as cores do Santos Futebol Clube. Entreguei o dinheiro ao trabalhador do setor informal, ele colocou a camisa dentro de uma sacola plástica preta e segui meu rumo.

Cheguei na casa de meus avós por volta da hora do almoço, seguindo o delicioso cheiro que vinha da cozinha encontrei minha avó preparando o mesmo, ela disse-me para ir acordar meu avô (que muitas vezes tirava um cochilo entre o antigo Debate Bola e a hora do almoço) e que, i-me-di-a-ta-men-te, balançando o dedo indicador a cada sílaba que pronunciava, deveríamos descer para comer.

Entrei no quarto de meu avô apenas com a sacolinha em mãos, me sentei no pé da cama e lhe cutuquei a perna, dando o rígido recado de minha avó, isto é: sem negligenciar o i-me-di-a-ta-men-te. Ele se virou na cama, se sentou na mesma, esfregou as mãos no rosto e deu uma leve aparada nos cabelos brancos:

-Tudo certo lá no centro? – me perguntou.

-Tudo, e eu lhe trouxe este presente de lá…

Entreguei a sacola preta, ele a abriu, esticou a camisa por sobre as pernas, depois a ergueu segurando-a pelas mangas, e então exclamou:

-Mas é uma camisa muuuuuuuito bonita!

-É pra você usá-la quarta feira vô, quando o Santos for jogar a final da Libertadores.

Trocamos um grande abraço e nos levantamos, ele esticou a camisa no encosto da cadeira de seu quarto e descemos para almoçar; naturalmente fomos interrogados pela minha avó sobre a demora, a qual recebeu a sábia resposta de que estávamos proseando, dita pelo velho.

O Santos perdeu a Libertadores para o Boca Juniors: 2×0 em Buenos Aires e 3×1 em São Paulo, não tenho dúvidas de que isto tirou o sono de muitos santistas (e certamente o gol de Tevez, do meio campo, ainda cause pesadelos nos mais fanáticos), mas o que me tirou o sono esta noite, fazendo descrever esta memória, foi a lembrança de que hoje, 23 de Fevereiro, é o dia em que comemorávamos, com abraços calorosos, como o descrito acima e o registrado abaixo, o aniversário de meu Santástico avô.

Gabriel Monteiro

Comentários

  1. Boa biel! As vezes nos perdemos nos meios e esquecemos que o bom do esporte, do futebol é a confraternização, o espirito de competitividade que deveria nós fazer querer ser melhores e não tornar os outros piores. Esquecemos que o que fica marcado na vida são as trocas de afetos e não as trocas de provocações.
    Ame seu clube, mas ame muito mais seu companheiro e principalmente sua familia!

    Gde Abco cara!

  2. Filho, querido filho!

    Mais uma vez você me leva às lágrimas. Não só pela saudade, pela falta, pelo amor que sentimos. Mas pela forma como você guardar essa belas lembranças e de como consegue relatá-las, de uma pessoa tão importante e querida por nós. Não deixe o tempo apagar isso tudo.
    Obrigada pelo lindo texto (apesar das lágrimas).

    Beijo grande.

  3. Querido Gabriel, belíssimo texto! É de encher os olhos de alegria e lágrimas também, quando nos deparamos com tamanha sensibilidade. Beijos enormes!! Ercy